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O espaço da mulher na empresa

Um artigo publicado na revista The Economist focalizando os avanços femininos e as perdas masculinas em várias áreas, cita o ex-ministro francês Jack Lang, segundo o qual o mundo (moderno) é (e continua) masculino, mas o futuro pertence às mulheres. Exemplifica mostrando que apesar das teorias e avanços tecnológicos serem principalmente obras masculinas, são as mulheres cada vez mais procuradas para assumirem posições técnicas antes consideradas exclusividade masculinas, como comandos estratégicos e controle de equipamentos sensíveis e de alta resolução e até posições na indústria pesada, tirando, com isso, várias oportunidades de trabalho antes dirigidas para os homens e diminuindo suas ofertas de trabalho. Por quê? Por serem mais cautelosas, pacientes, colaborativas e atentas a comandos de superiores, além de possuírem habilidades manuais sensíveis e finas.

Mas será verdade? Estatísticas recentes indicam que os homens continuam tendo mais oportunidades de trabalho e melhores salários, com ou sem crises. E se de um modo geral as oportunidades de trabalho diminuíram para ambos os sexos nos níveis inferiores de renda, principalmente por falta de capacitação e treinamento, nos níveis médio e superior, o poder econômico das mulheres cresceu muito. A mulher já representa, nos Estados Unidos, metade da força de trabalho (48%) e, enquanto houve uma retração em torno de 7% para salários masculinos, houve um aumento em torno de 11% para as mulheres nos últimos anos. E as mulheres capacitadas e bem preparadas já constituem o segmento mais crescente da sua força de trabalho. E embora se diga que mais mulheres estão trabalhando para aumentar a renda familiar, são nas famílias de renda mais alta que isso ocorre com mais frequência. Há cerca de 30 anos, quanto mais alto o salário do marido, menor era a chance da mulher trabalhar.

Hoje, o dual career couple, jovens altamente qualificados se casam e continuam desenvolvendo suas carreiras. Também nos Estados Unidos, o setor mais crescente da economia nos últimos dez anos é o das mulheres empresárias, representando um crescimento de 40%, 1/3 do total de negócios. Segundo o National Foundation for Women Business Owners, mais de 8 milhões de empresas, na maioria pequenas e médias, pertencem a mulheres, empregando 18,5 milhões de pessoas. O National Women’s Economic Summit, que foi realizado pela primeira vez em meados de 1996 na Kellogg School of Management, já enfatizava o papel das mulheres na revitalização da economia norte-americana, inclusive em setores de manufatura e construção civil. E o governo tem dado muita assistência a elas, desenvolvendo programas federais de empréstimo e assistência técnica. No Brasil, existem alguns movimentos nesse sentido, capitaneados pelas ONG’s das Mulheres.

Mas vejamos quais as características femininas que parecem contribuir para um espaço crescente nas empresas e quais as maiores dificuldades que as mulheres encontram nessa caminhada.

Ao fazer um levantamento sobre o que seriam as características associadas ao comportamento social e profissional de homens e mulheres, através de suas auto-definições, utilizando grupos participantes de programas de treinamento (pós-graduação e reciclagem, com idades variando de 22 a 55 anos) encontrei o seguinte:

MULHERES

• capacidade de relacionamento com os outros, de cuidar e se preocupar com os outros;
• dependência/interdependência (o que você quer que eu seja para você/o que eu posso para mim mesmo);
• capacidade de amor, amizade e troca;
• ser mãe e assumir esse papel;
• perceber os sentimentos e humores dos outros;
• ter família e carreira;
• especialização de papéis na família: dona de casa e envolvimento com filhos; (em muitos casos também provedora)
• relatividade de julgamentos morais (em função de alternativas);
• pensamento contextual

HOMENS

• capacidade de autonomia pessoal;
• independência (o que eu quero ser fazer para, por e com você);
• capacidade de amor;
• amizade e interesse comunitário;
• ser agressivo, ter sucesso, realizar;
• carreira e autonomia de trabalho;
•    papel na família: provedor (em alguns casos donos de casa e envolvimento c/filhos)
•    julgamento moral em termos absolutos (certo ou errado);
•    pensamento formal

Os homens lutam para preservar a independência e evitar o fracasso. Utilizam relacionamentos e conversas como meios para troca de informações (papo – informação). Estabelecer uma rede de conexões e até de amizades é um meio de se manter posicionado, não ficar para trás. As hierarquias são estabelecidas através de competições por poder e autoridade. A habilidade de formatar um modelo acurado de si mesmo e operá-lo eficientemente, que é a inteligência intrapessoal é mais próprio do homem.

As mulheres lutam para preservar a intimidade dos relacionamentos, evitar o isolamento, formar uma rede de apoio e atingir consenso. Conversas são maneiras de estabelecer relacionamentos (papo- relação). Flexibilidade, criar empatia, capacidade de delegar, capacidade de relacionamento com e de motivação de pessoas, compartilhar fazem parte da mulher. A habilidade de entender o outro para poder trabalhar em cooperação, que é a inteligência interpessoal faz parte da mulher.

A inteligência emocional, que é de natureza social, envolve a capacidade de monitorar suas próprias emoções e a dos outros, de discriminá-las e usar essas informações para guiar pensamentos e ações. Hoje ela é característica inerente e essencial, tão importante quanto a capacitação intelectual para se obter sucesso na vida profissional. E esse equilíbrio, acrescido das outras habilidades femininas, tem marcado pontos cada vez mais positivos para as mulheres que tentam desenvolver suas carreiras.

Mas a cultura organizacional é masculina, impressa pelo fundador ou fundadores e, apesar de todas as conquistas, inúmeras são as dificuldades que as mulheres encontram para obter espaço nas empresas. E as empresas familiares não fogem a essa regra. Os mais mencionados são:

• definição de papel;
• competição / “telhado de vidro”;
• formação profissional;
• falta de tempo;
• conflitos com colegas e superiores em relação a violência, abuso e assédio sexual;
• ansiedade e stress.

Em relação à definição de papel, tudo depende de como a mulher se coloca diante da empresa. Numa empresa não-familiar ela pode se colocar como funcionária/executiva (em todos os níveis desde trainee até dirigente), proprietária (no caso dela ser a empreendedora, a iniciadora do negócio), acionista e membro do conselho de administração). Na empresa familiar ela pode se colocar como:

interessada: independente do papel que ocupa;
proprietária: presidente, dirigente, co-proprietária e herdeira (como filha ou viúva do fundador ou do principal dirigente);
proprietária sem papel de direção: acionista ou membro do conselho;
funcionária: papel de executiva;
membro da família: interessada, acionista, membro do conselho.

Qualquer que seja o papel, ela terá de enfrentar chavões do tipo trabalho de homem/ trabalho de mulher; trabalho de mãe/trabalho de pai. Terá de romper barreiras impostas pela própria família, confiar em si mesma e em sua capacidade de enfrentar e resolver problemas. E como para cada uma das posições acima existe um perfil específico, definido pela cultura familiar/organizacional, necessidade da organização/posição, capacitação profissional e equílibrio emocional, a mulher terá de fazer uma escolha. Baseada na sua visão intrapessoal, interpessoal e social. Que necessita maturidade, orientação e preparo.

A formação profissional essencial para qualquer papel que venha a assumir poderá ser mais ou menos intensa, dependendo da posição almejada, mas requisitará esforço e empenho e não irá diferir da dos homens almejando posições semelhantes. A competição irá envolver capacitação e empenho. Terá de ser conquistada pelo seu valor.

A tendência de aceitar a mulher e lhe reservar um papel secundário ou impor situações constrangedoras que a façam desistir ou se submeter não fazem mais sentido hoje. Promoções e equiparação salarial são direitos adquiridos pela competência, dedicação e desempenho. Disputas com irmãos e parentes, constrangimentos via violência, abuso ou assédio sexual precisam ser resolvidos através de negociações, denúncia e autoridade.

Se a mulher é do tipo low profile, ela não necessita assumir posições masculinas para desempenhar produtivamente o seu papel. A assertividade é inerente à qualidade e a firmeza no desempenho do seu papel. Submissão é problema que deve ser resolvido através de canais competentes. Ela poder ser uma excelente executiva, mas não exercer posição de comando, por exemplo.

Falta de tempo no desempenho de duplas ou triplas jornadas, ser esposa, dona de casa e mãe requer muito da mulher moderna e profissional. Conciliar essas funções, pouco conciliáveis, provoca ansiedade e stress. Mas é uma imposição do mundo moderno. Homens e mulheres padecem igualmente. Nesse sentido a empresa familiar é um atrativo, no sentido de aproximar família e trabalho, guardando, é claro, os respectivos limites.

No entanto, a principal dificuldade a ser superada pela mulher é a questão da invisibilidade. Para ela ter o seu espaço garantido na empresa ela tem que se tornar visível. Seja qual for o papel que ela escolha para desempenhar, ela precisa ser notada. Não no mau sentido, de se promover a qualquer preço, de usar o trabalho dos outros, de seduzir os outros, de se impor pela força ou excesso de autoridade. Durante muito tempo a mulher exerceu sua invisibilidade como uma forma indireta de poder. As teorias de família estão recheadas de exemplos (negativos) de mães que usam esse “poder” para manter a família unida e os filhos ao seu alcance, criando situações constantes de duplo vínculo, onde os membros da família se fecham num círculo de interdependência tal que os impede de movimentos de autonomia e intercâmbio com o ambiente externo, no sentido de alcançar voos próprios e maturidade. Ou as situações de triangulações onde a personagem invisível, a terceira do triângulo é a que tem o poder de influir nas tomadas de decisões, na resolução ou criação de conflitos. Mas a mulher invisível, que também é chamada em inglês de CEO (chief emotional officer), também é aquela que orienta positivamente os filhos sem sombrear a figura do marido/pai; é a co-proprietária que trabalha ativamente na empresa sem receber pagamento ou se manifestar em público; é a que influencia o marido na tomada de decisões; é a viúva que assume uma posição de comando, mas delega todos os poderes para filho(s) ou parentes; é a que auxilia o pai ou trabalha com ele ativamente, mas deixa a posição de chefia para um irmão ou marido para permanecer a “filha” do papai, ou ainda espera que ele um dia reconheça o seu valor e a eleve a uma posição de importância. A mulher capaz, bem preparada e produtiva tem que se tornar visível para a família e a empresa e trabalhar junto com o homem no desenvolvimento, crescimento e construção de um mundo melhor para todos.


 




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