O Brasil é mesmo um país empreendedor?

Segundo a pesquisa realizada anualmente pela Global Entrepreneuship Monitor (GEM), em 2008 o Brasil ficou em 13° lugar na lista dos países mais empreendedores do mundo (3° se comparado somente com os países do G-20).  Será que o resultado reflete a mentalidade do povo brasileiro? Temos a busca de oportunidades, a disposição para correr riscos, o interesse pelo novo em nosso DNA? Temos uma população que considera o empreendedorismo uma opção de carreira e se prepara para isso?

Para analisarmos essas questões, vamos refletir sobre os motivos que levam os brasileiros a empreender e qual o grau de inovação dos novos empreendimentos.
Segundo a pesquisa, apenas 33% dos novos negócios são criados por necessidade, ou seja, falta de oportunidades no Mercado que forçam pessoas a iniciar um negócio, muitas vezes informal. Como ressalta o diretor técnico do Sebrae, Luiz Carlos Barboza, uma alta taxa de empreendedorismo pode ser um sinal de pobreza. Basta vermos que o primeiro lugar na pesquisa do GEM foi para a Bolívia, que de acordo com os dados do Banco Mundial (Bird) é o país com maior taxa de informalidade do mundo.
Mas parece que no Brasil o empreendedorismo por necessidade ocorre com uma parcela limitada dos casos. Então vamos analisar o grau de diferenciação dos novos negócios. Acredito que esse aspecto é importante pois empresas com pouca inovação normalmente apresentam pouca competitividade,  baixas margens de lucro e pouca capacidade de crescimento.

Na pesquisa, somente 3,3% dos entrevistados afirmaram que seus produtos são considerados novos ou desconhecidos pelo público. E 85,7% afirmam que as tecnologias utilizadas têm mais de 5 anos.

Se a esmagadora maioria dos novos negócios não apresentam grau de inovação e boa parte deles são iniciados por necessidade, podemos admitir que a grande maioria dos empreendedores brasileiros não estão preparados para iniciar seus novos negócios.
Essa falta de preparo pode ser atribuída a difversos fatores, porém acredito que é uma questão cultural. O brasileiro é educado na sua família e nas escolas para ser funcionário.

Apesar do resultado positivo da pesquisa do GEM, o que vemos é que a grande maioria dos brasileiros sonha mesmo é com um emprego de carteira assinada.
Em pesquisa realizada em 2008 pela Datafolha sobre os sonhos dos jovens brasileiros de 16 a 25 anos, essa afirmação fica mais evidente. Dentre todos os sonhos dos jovens, os mais citados são os relacionados com ter uma carreira como empregado seguindo a seguinte ordem: Se formar em determinada profissão (18%), ter emprego (15%), moradia (14%), estudo (12%), constituir família (10%) e assim por diante. Ter um negócio próprio é um sonho para 3% dos entrevistados, com menos relevância do que ter um carro (4%).

Outra pesquisa realizada por uma consultoria de RH com 27 mil jovens de todo país mostraram que a Petrobrás é a empresa dos sonhos para se trabalhar. O motivo? Cerca de 80% afirmaram pelos altos salários e 84% afirmaram que não mudariam de emprego se tivessem possibilidade de crecimento profissional. Imagina para abrir uma empresa.

Não são somente os jovens. Uma materia exibida no Jornal Nacional (17/05/008) sobre o mercado de concursos públicos, mostrou que todos os anos temos cerca de 5 milhões de inscritos para concursos públicos no Brasil. Segundo o IBGE a média de abertura de novas empresas de 2000 a 2006 foi de 726 mil por ano. A entrevista sobre emprego da consultora de RH Neli da Silva nesta mesma materia deixa claro a mentalidade padrão de aversão ao risco: “Se eu preciso de desafios constantes, isso que me motiva, é o setor privado, se é segurança, qualidade de vida, então é o segmento público”.

No meu ponto de vista, esse aspecto cultural gera um “ciclo vicioso” anti-empreendedor. A população não demanda por educação empreendedora (afinal a maioria quer ser empregado), as escolas e universidades (públicas e privadas) não investem nesse setor e como resultado não temos pessoas preparadas para novos empreendimentos, salvo raras exceções.

É difícil ouvirmos durante todo nosso período de aprendizado que ter uma empresa própria é uma opção de carreira. Escolas estão mais preocupadas em preparar seus alunos para o temido vestibular. As universidades preparam “para o mercado de trabalho” e raramente ensinam algo relacionado com empreendedorismo. Os pais sonham em ver seus filhos engenheiros, advogados, medicos. Ter uma empresa própria no Brasil é só para aventureiros que querem correr muitos riscos ou para quem não tem opção.

Instituições privadas como a Biinternational, públicas como o Sebrae, Ongs como o Endeavour promovem ações e o ensino para promover o empreendedorimo, mas ainda temos muito a ser feito para sermos não só considerados, mas sermos de fato, um país empreendedor.

Uma resposta para “O Brasil é mesmo um país empreendedor?”

  1. Rodrigo Caldeira Ramos » Blog Archive » Educação para o Empreendedorismo Disse:

    […] no post “O Brasil é mesmo um país empreendedor” que, apesar do que é muito falado na mídia e nas pesquisas, não somos um país de […]

Deixe um comentário