Ética e sustentabilidade aplicadas ao etanol
9 junho, 2010 por lemastO etanol é uma molécula orgânica relativamente simples e de fácil obtenção, que se mistura facilmente com outros líquidos (água e gasolina) e encontra uma ampla aplicação na vida cotidiana do brasileiro. O etanol é usado como solvente industrial, anti-séptico, conservante, componente de diversas bebidas, em desinfetantes domésticos e hospitalares, solvente de fármacos importantes e na forma de combustível. O Brasil tem tradição e conhecimento na produção deste bicombustível para a substituição gradativa do petróleo. Ele pode ser fabricado, principalmente, a partir do plantio da cana-de-açúcar. Para o plantio da cana-de-açúcar, o produtor deve escolher as variedades que melhor se adaptem ao solo, período de safra e clima de sua região, levando em conta as características de produtividade, riqueza de açúcar e facilidade de fermentação. No Brasil, a cana-de-açúcar é produzida essencialmente nas regiões sudoeste e nordeste do país A cana-de-açúcar adapta-se a uma ampla faixa de clima, desde latitudes 35°N a 30° s sendo normalmente plantada em altitude até 1000m do nível do mar. A precipitação volumétrica anual mínima exigida é de 1.200mm, com chuvas bem distribuídas.
O solo deve ser leve sem excesso de umidade rico em matérias orgânicas e minerais. Solos pesados, argilosos e mal drenados são limitantes para o cultivo da cana-de-açúcar. O Brasil se encaixa perfeitamente nesses padrões, o que o torna um dos líderes no que se diz respeito ao etanol. Além do mais, nenhum país industrializado até hoje conseguiu substituir o uso de gasolina na escala em que aqui foi feito e produzir praticamente metade da energia que consome a partir de fontes renováveis. Dessa metade, 16% vêm do etanol. Historicamente no Brasil, a produção de cana-de-açúcar é conhecida pela superexploração do trabalho e pela destruição do meio ambiente, se a jornada dos escravos da cana-de-açúcar era a da natureza, de sol a sol, hoje, os cortadores de cana acordam às quatro horas, preparam sua marmita, e, no máximo, as cinco já estão no ponto do ônibus que os leva até a lavoura, muitas vezes, a mais de 100 km de casa. Eles voltam extenuados, moídos como a cana que sai da destilaria, jogando a água que sobrou das moringas. Isso porque, mesmo sob um sol escaldante, se quiserem acrescentar alguns centavos ao pouco que levam para casa, nem têm tempo de saciar a sede. Sorte pior é a dos trabalhadores vindos de outros estados, conhecidos como “Andorinhas”, que não são nem de lá nem de cá e que vivem num extremo que, às vezes, os leva às raias da loucura. Muitos mal conseguem pagar as despesas contraídas nos alojamentos (senzalas?). Esse é o cotidiano do cortador de cana em muitas destilarias do Oeste e do Noroeste do Estado. Ironicamente, mesmo reeditando o doloroso passado no trato com seus principais colaboradores, as destilarias vivem seus melhores momentos. Elas conseguiram aumentar a área de cultivo, renovar o parque industrial e as frotas, bem como ampliar a produção. Tudo, graças aos trabalhadores, que tiveram um importante papel na queda de braço do setor com o governo federal na crise do final dos anos 90, quando elas vendiam o álcool a 15 centavos, um preço bem diferente dos 90 centavos que hoje recebem.
Quem não se lembra dos cortadores de cana fechando rodovias e fazendo passeatas em Brasília? No entanto, agora, se o preço do álcool aumentou seis vezes, o salário dos cortadores quase nada mudou. Existem problemas que precisam ser resolvidos para que o álcool se torne realmente uma alternativa sócio e ambientalmente sustentável no Brasil. Problemas esses gerados pela monocultura da cana-de-açúcar, pela condição social e trabalhista da mão-de-obra empregada, pelo primitivo processo de colheita (que obriga à queima da cana), entre outros. A queima da palha do canavial visa facilitar e baratear o corte manual, fazendo com que a produtividade do trabalho do cortador aumente de duas para cinco toneladas por dia. Os custos do carregamento e transporte também são reduzidos, e aumenta a eficiência das moendas, que não precisam interromper seu funcionamento para limpeza da palha. Por outro lado, essa prática, empregada em aproximadamente 3,5 milhões de hectares, tem conseqüências desastrosas para o ambiente.
No Brasil as queimadas são uma prática proibida por lei há vários anos. Ainda, a queimada libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre e também a indesejada fuligem da palha queimada, que contém substâncias cancerígenas. A prática da queimada, apesar do benefício imediato, tem outros efeitos colaterais, provocando perdas significativas de nutrientes para as plantas e facilitando o aparecimento de ervas daninhas e a erosão, devido à redução da proteção do solo. As internações por problemas respiratórios, intoxicações e asfixias aumentam consideravelmente durante a época da fuligem. Outra questão fundamental para a sustentabilidade é sabermos se o aumento na quantidade de etanol produzida pode afetar outros produtos importantes, como, por exemplo, alimentos. Essa objeção aos biocombustíveis tem sido popularmente aceita na Europa e nos Estados Unidos e é fácil entender por que: estas são regiões do mundo nas quais não há fronteira agrícola a ser explorada – toda a terra arável está em uso. Por isso, falar de plantar “fontes de energia” deslocaria plantações de alimentos. Mas na América Latina e na África há muita terra boa ainda disponível. A disponibilidade nessas duas regiões é especialmente positiva, pois são justamente as regiões mais pobres do mundo e nas quais o desenvolvimento vai levar a maiores demandas por energia.
Um estudo recente, feito por cientistas críticos dos biocombustíveis, mostrou que a área disponível na América Latina e África em 2050 seria de 430 milhões de hectares, já descontando a área necessária para produção de alimentos, habitação, infraestrutura e manutenção de florestas. Ora, o Brasil produz 8 mil litros de etanol por hectare/ano. É razoável supor que essa produtividade poderá chegar, em 2050, a 10 mil litros por hectare/ano, como resultado dos esforços de pesquisa sobre melhoramento da cana. Com essa produtividade – e usando apenas a metade dos 430 milhões de hectares disponíveis – a produção anual seria de 2.150 bilhões de litros por ano. Essa quantidade seria suficiente em 2050 para substituir toda a gasolina que, se prevê, será usada naquela data no mundo todo. Portanto, as perspectivas do etanol de cana são grandes, mesmo sem se considerar avanços tecnológicos que certamente acontecerão nos próximos anos.
Em se tratando de poluição, ao contrário do que muitos acreditam, a emissão de gases poluentes pelos veículos a álcool é bastante semelhante aos veículos movidos à gasolina, a diferença reside na tecnologia empregada nos veículos mais novos que, certamente e independentemente do tipo de combustível que utilizam, poluem menos que os veículos mais antigos, por possuírem mecanismos como catalisadores, canister e injeção eletrônica. Porém, olhando por outro ângulo, o aumento do consumo de álcool, que só é possível graças ao baixo preço em relação à gasolina, é um incentivo ao abandono da utilização do petróleo, que é uma fonte de energia não renovável.
Em suma, a produção de etanol, assim como tudo na vida, tem seus prós e contras. Por um lado diminuiria a necessidade pelo petróleo, que é uma fonte esgotável; em contrapartida, o sofrimento que o processo de transformação da cana em etanol gera à seus colaboradores, não é nem um pouco considerado humano, o que dirá sustentável. Para que a produção do etanol seja mais sustentável, precisamos melhorar as condições dos trabalhadores envolvidos. E que essas melhoras viessem do governo, pois assim não haveria queda dos lucros (o que geraria um aumento no preço do etanol).

