A produção de álcool a partir do bagaço, utiliza como matéria-prima, substâncias de origem vegetal. No Brasil, é utilizado, dentre diversos outros recursos, o bagaço de cana de açúcar, o qual enfatizarei neste post.

HISTORICAMENTE, UMA INDEFINIÇÃO:
Em 1970, o governo brasileiro criou o programa Pró-Álcool, por causa da crise mundial do petróleo, como uma alternativa combustível, promovendo estudos tecnológicos para a produção em grande escala e, por outro lado no setor privado, as indústrias automobilísticas adaptaram os seus motores para receber o álcool combustível.
Creio que alguns podem lembrar da popularidade dos carros movidos a álcool nos anos 80, onde demoravam horas para ligar nas manhãs mais frias. Isto foi realmente um problema de desempenho das tecnologias desenvolvidas na época. Em 1991, houve uma alta dos preços do açúcar e o governo brasileiro desestimulou a fabricação de álcool.
No início do século XXI, na certeza de escassez e de crescente elevação no preço dos combustíveis fósseis, priorizam-se novamente os investimentos na produção de etanol por um lado e, por outro, um amplo investimento na pesquisa e criação de novos biocombustiveis. Diante de uma situação nacional antiga e inconstante, justamente causada pelas altas e baixas do petróleo, as grandes montadoras brasileiras aprofundaram-se em pesquisas e, dessa forma, lançaram uma tecnologia revolucionária: os carros dotados de motor bicombustível, fabricados tanto para o uso de gasolina quanto de álcool.

Esta instabilidade, que fica atrelada ao preço do barril do petróleo e a falta de posicionamento e planejamento do governo brasileiro, faz com que nós, consumidores, fiquemos sucetíveis às decisões mal tomadas. José Goldemberg, físico, ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo e um dos responsáveis pela criação do Proálcool na década de 1970, diz:
“Ao utilizarmos fontes de energia produzidas aqui, não dependemos de importação nem ficamos suscetíveis a crises mundiais. Também estamos adiante na discussão ambiental, já que a hidroeletricidade e o etanol são renováveis e poluem pouco”, diz (leia o artigo na página 47). No entanto, ele alerta, a falta de investimentos em tecnologia e pesquisa está mudando o conjunto das fontes utilizadas e pode “sujar” a matriz energética gradativamente.”
ATUALMENTE, UM POSICIONAMENTO
Hoje no Brasil, utilizamos a 1ª geração da tecnologia de produção de álcool (ou seja, produzimos álcool a partir do “melaço” de cana), na tecnologia de 2ª geração, a produção pode ser feita também com a celulose (ou seja, uma enzima “quebra” a molécula de celulose e assim essa é utilizada no produção de álcool). A segunda geração de produção, permite utilizarmos o bagaço da cana, além do “melaço”, isso aumenta muito a produtividade sem termos que expandir a área de plantação, evitando a “invasão” de áreas de cultivo alimentar e/ou áreas de mata nativa. Fala-se também em uma terceira geração, mas não há muitos dados a respeito. Outro ponto a ser considerado é a substituição do uso de combustível fóssil pelo renovável (álcool), essa pode ser uma das vantagens desse “sistema” no entanto, não acredito que seja a solução para a substituição da matriz energética mundial.

As vantagens: tem preço baixo, emite poucos gases poluentes e é uma alternativa ao petróleo no setor de transportes, e ainda, com potencial para exportação. Hoje, ele representa 15% do total de combustíveis utilizados em motores à combustão.
Pontos de atenção: No entanto, para atender esta demanda, será necessário aumentar a produção com sustentabilidade. Teme-se que o aumento de áreas destinadas à cana afete a produção de alimentos (e o abastecimento) e ainda empurre a soja e a pecuária para a floresta Amazônica.
FUTURAMENTE, UM DESAFIO
A matriz poderia ser mais limpa: Até 2030, estima-se o aumento de 143% no total de energia consumida no país. Em 2005, as fontes não renováveis produziam 53% dessa força, o que é considerado um bom número em comparação com os países desenvolvidos. Com mais investimento em tecnologias alternativas, como a biomassa, o biodiesel e a energia eólica, a matriz poderia, nos próximos 20 anos, ficar ainda mais limpa. Mas as previsões não são animadoras Em 2005: 165 milhões de tep*; Outros (biodiesel, biomassa, carvão vegetal e carvão mineral) - 23%; Gás natural - 6%; Energia elétrica - 19%; Derivados de cana - 12%; Derivados de petróleo - 41%.
Além disto, existem os problemas da condição social e trabalhista da mão-de-obra empregada, pelo primitivo processo de colheita (que obriga à queima da cana), entre outros. A queima da palha do canavial visa facilitar e baratear o corte manual. No Brasil as queimadas são uma prática proibida por lei e, em ambientalmente criminosas, pois libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre e também a indesejada fuligem da palha queimada, que contém substâncias cancerígenas. Há também uma perda dos nutrientes para as plantas. As internações por problemas respiratórios, intoxicações e asfixias aumentam consideravelmente durante a época da fuligem.

Os custos do carregamento e transporte também são reduzidos, e aumenta a eficiência das moendas, que não precisam interromper seu funcionamento para limpeza da palha. Por outro lado, essa prática, empregada em aproximadamente 3,5 milhões de hectares, tem conseqüências desastrosas para o ambiente.
Ainda enxergamos a questão do Etanol como um desafio econômico, e pouco é feito, discutido e pesquiado em âmbito social e ambiental. Em termos de ética, estas são os buracos negros que ainda não são debatidos o suficiente. E é o desafio na nossa geração, ainda cega nestes aspectos.