Alguém tem que dizer…
Há tarefas que nos infligimos e que não são simples. Por exemplo, essa empreitada que me impus hoje. Trata-se de algo deveras desagradável do ponto de vista do tato: pondero sobre a “tarefa” de falar sobre algo que contradiz o “senso comum”. (Confesso que sinto como se fosse “brincar com fogo” e o medo de se queimar é inerente, mas …voilá!)
Quero convidá-los a refletir comigo sobre a imagem. Para ser mais específica convida-los a refletir sobre a “imagem humana”. A imagem humana que está exposta nos outdoors, nas revistas de moda, nos programas de TV, nos sites, etc. Falo, obviamente, da imagem humana tida, atualmente, como “símbolo da perfeição”. E não é necessário prestar atenção para perceber que essa “perfeição” está emaranhada-amalgamada-idealizada na imagem da juventude, na imagem da felicidade, na imagem de algo contrário à mutação de qualquer espécie…
Nesses “espaços de paraíso moderno” todos sorriem. Todos são felizes! É como se houvesse uma “fabrica de telas” (com movimentos ligeiros, e sempre pré-estabelecidos!) para vender à cultura de massa a “receita de paraíso”. E é algo que “contém” essa espécie de “aura mágica” que nos é “vendida” incansavelmente. (E que “compramos aleatória e alienadamente”!) Porém, é essa “aura” que muitas vezes nos entorpece, nos entristece e, no ápice da “tragédia real” pode-nos “enlouquecer”. Afinal, é com essa imagem “estatizada” em nossos cérebros que criamos para nossa própria vida esse “ideal de felicidade” (e não nos contentamos que seja um “milímetro” menor que isso!) E somos constantemente estimulados a não nos contentarmos. Para isso “pipocam” psicólogos. Eles existem para nos “ajudar”. Para amparar nessa ingrata tarefa que nos incutimos intimamente para que busquemos dentro de nós “armas” para lidar com a “realidade existente” e a “realidade criada”.
Nesse contexto a realidade existente é aquela com os problemas do dia a dia e a realidade “criada” é aquela que almejamos para ficarmos ao menos “parecidos” com nosso ideal em mente. É um círculo tão vicioso e tão bem alimentado que possibilita que “monstros ferozes” sejam criados dentro de criaturas naturalmente doces e até pela idade naturalmente puro-ingênuas.
…E aí não estou apenas levantando hipóteses. O que me instigou a ponderar sobre essas questões foi uma situação que me chocou quando ouvi de uma menina saudável e inteligente (sim, inteligente! _ não tenho dúvida!) o comentário de que ela jamais seria tão feliz como a Gisele Büdman simplesmente porque não tinha a beleza dela. E ela afirmou isso com uma dor pungente e profunda. Para essa menina (de não mais que quatorze anos!) a felicidade pessoal está tão intrinsecamente ligada a uma “beleza pré-estabelecida” que todas as suas qualidades pessoais são “vazias”… (Ops! Não seria o contrário???)
Isso é muito sério! Se já vivemos (em “tempos medievais”) em uma sociedade que “ditava” que somente os nobres (bem nascidos) eram dignos de “consideração e respeito” oscilamos atualmente para uma sociedade onde a beleza é o “crachá” de entrada pra “o mundo de sonhos” que todos querem entrar… Veja: não se trata mais querer “adentrar” nos impenetráveis “castelos medievais”. Não! Agora todos querem o castelo de sonhos onde mora a fama e o sucesso. Agora “cria-se” uma necessidade e vende-se a “forma” de “entrar” nela… (Primeiro eu execro a velhice e depois vendo cirurgia plástica!) Mas a cirurgia é apenas “um passo” para a “felicidade almejada” que está mesmo no “cume da montanha”. Então se vende todo o “mapa” com o “caminho certeiro” para entrar nesse “castelo de sonhos”. E é nesse sentido que para conseguir o “convite de entrada” fazem-se cirurgias plásticas, coloca-se botox, silicone…
E, por paradoxo (?!) que seja as pessoas que “entram” nesse mundo invariavelmente se ressentem de ser “muito menos” do que esperavam e, as que porventura não conseguem o “tal convite” passam a vida inteira na porta do “espetáculo alheio” sem sequer sentir a própria vida passar…
